Caminho por uma estrada de terra. Árvores ao lado, mato quase fechado. Estrada longa. Caminhos, encruzilhadas. Cruzes pela estrada, de quem morreu ali. Alguém veio e pediu paz à alma que se despiu. Depois, não voltou mais. Pra quê?
Tenho a impressão de que já passei por essa estrada. Um assobio de pássaro me toca os tímpanos, me arrebata, me arrebenta, me faz ver coisas que já tinha esquecido. O que eu larguei pelo caminho, meu Deus! Voltar pra buscar? Lamentar, pedir perdão, clemência, voltar atordoado pra recuperar coisas num bosque que está escurecendo. sem enxergar, sem lembrar direito, onde, como, quando se perdeu.
Confusão
Sentimento de culpa
ânsia, pressa,
desespero leve que arranha os nervos dos sentidos, que fáz cócegas no estômago
que te tira a vontade
Eis que caminhar é o único remédio. O cansaço do corpo descansa a mente, organiza as idéias da gente.
Eis que o caboclo chega a uma casa, um cercado onde há um fogão de lenha. Há o estalar da madeira, o cheiro de fumaça. As estrelas ardem no céu, os olhos ombros pesam. Água. Água viva, água boa, água vida. Há um cheiro de mulher, avental no cabelo. O caboclo de muitos lugares e vidas prova pela primeira vez, quente, o caldo nuritivo dos contos de Hesse, e bebe até a última gota o caldo de mandioca, carne e pimenta.
O crepitar do fogo.
A fumaça na chaminé.
Vontade de contar coisas.
Descanso.
Criança.
