Há doenças piores que as doenças, Há dores que não doem, nem na alma Mas que são dolorosas mais que as outras. Há angústias sonhadas mais reais Que as que a vida nos traz, há sensações Sentidas só com imaginá-las Que são mais nossas do que a própria vida. Há tanta coisa que, sem existir, Existe, existe demoradamente, E demoradamente é nossa e nós... Por sobre o verde turvo do amplo rio Os circunflexos brancos das gaivotas... Por sobre a alma o adejar inútil Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
Isso, é do Fernando Pessoa, claro. Álvaro de Campos, claro. Mas lembra de uma certa forma Manuel Bandeira, na verdade um poema do Bandeira: O Último Poema. Tem um verso - "A paixão dos suicidas que se matam sem explicação", que mexe comigo. Quem de nós nunca flertou com a própria morte, como uma proposta tentadora e doce? Alguns bem menos que outros. Outros enxergaram nessa saída uma saída de emergência, que poderia ser usada quando a coisa apertasse, se apertasse de uma maneira intolerável. Por incrível que pareça, essa maneira de adiar o suicídio salvou a vida de muita gente, talvez a minha.
Dar tempo ao tempo. Para mim, foi melhor assim.
Não sei quanto a vocês, mas para mim nunca foi uma insatisfação ou tristeza hormonal, mas uma angústia filosófica e total e completa dissonância em relação aos meus pares. Não é um sentimento de superioridade, entendam. É olhar à sua volta e tudo ser alheio, tudo estar ao contrário e ser tudo ócio, peso, descrença. É olhar as mãos e não ver nem traço seu.
Me pergunto: qual a diferença, a real diferença, entre o suicídio que leva anos e o que leva minutos? Teimosia, coragem, paixão? Amor?
